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Archive for 12 de janeiro de 2008

Entrando pela perna de pinto, saindo pela perna de pato, uma história puxando outra, lembrei outro dia de Dom Hélder. Numa conversa sobre os anos 70 com o pesquisador Otávio Machado, da UFPE, que faz um belo trabalho de recuperação da história do movimento estudantil dos engenheiros, surpreendeu a mim mesmo a resposta que dei sobre o que nos motivava a participar naquela época. Caiu a ficha: nós não queríamos simplesmente mudar o currículo, melhorar as condições de ensino, essas coisas. Nós queríamos mesmo era mudar o mundo, nada mais, nada menos. Simples, né?

É tanto que minha decisão de sair direto do curso de engenharia civil para o mestrado em desenvolvimento urbano foi uma opção por algo mais social, menos “técnico”, como foi a decisão subseqüente de trabalhar no setor público (“mudar o mundo por dentro do Estado…”). Eita nós… Sacerdócio da solidariedade social.

É aí que entra Dom Hélder na minha história. Em 1975, tinha havido a grande cheia do Capibaribe no Recife. Deu um 1,70 m de água na república estudantil da Ilha do Leite (deixei meu livros todos em cima da mesa, saímos correndo…só se salvou o som 3-em-1, que ficou em cima do armário de parede da cozinha). Pois bem, foi só a gente se recuperar um pouco, lavar o barro e procurar ver o que poderíamos fazer pelos outros.

Guardo na memória viva dos meus sonhos juvenis de solidariedade os momentos de voluntariado, como estudante de engenharia, na ação solidária de Dom Hélder na periferia do Recife. Tenho um carinho particular por um momento de síntese prático-teórica dessa experiência, que, na minha cabeça militante, redimiu o conhecimento “técnico” da engenharia do limbo alienado em que a minha inocência aguerrida o havia colocado. Foi quando, com um cordão e uma trena, tracei um triângulo retângulo 3 x 4 x 5 para alinhar em ângulos retos das paredes de uma casinha em reconstrução. Benditos sejam catetos e hipotenusas ao quadrado!

[A partir daqui, entrego a condução do texto à narrativa emocionada do agradecimento que fiz, em 2003, por ter recebido com muita honra, do Lions Recife-Graças, o Troféu Dom Hélder Câmara daquele ano. Ilustro a narrativa com fotos em preto-e-branco que tirei do Dom em 1976 (acho), numa procissão do Alto da Sé, em Olinda, até o Largo do Amparo (local das fotos). Obrigado por ter estado entre nós, Dom Hélder Câmara. Bem-aventurados os que puderam partilhar da sua convivência.]

Estudante solidário com os pobres da periferia do Recife, que reconstruíam suas casas abaladas pela cheia de 1975, fui algumas vezes à rua do Giriquiti, para as reuniões em que organizávamos a nossa assistência de voluntários. Foi ali que vi Dom Hélder pela primeira vez. E nunca mais o esqueci. Fizeram bem os senhores do Lions Recife-Graças ao escolher a companhia de Dom Hélder para denominar este prêmio. Ninguém soube valorizar o trabalho comunitário melhor do que o Dom.

O sopro vital que sempre embalava a sua fala me acompanha a cada releitura de suas frases alentadoras. Quem não se emociona ao ler (e rememorar a sua maneira de dizê-las) frases como:

“Mesmo que a maior angústia te visite e te acompanhe, não deixes que ela se reflita em teu rosto. Mundo agitado e triste precisa que leves contigo tua paz e tua alegria.”

“A lei consiste em amar a Deus e amar o próximo. Ora, quem ama o próximo já cumpriu metade da lei”.

dom helder e santa

“As pessoas te pesam? Não as carregue nos ombros. Leva-as no coração.”

“Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo.”

dom-helder-menina.jpg

“Na pobreza, existe apenas o indispensável, mas existe. Na miséria, nem o indispensável existe.”

“A única guerra legítima é aquela que se declara contra o subdesenvolvimento e a miséria.”

dom helder e meninos

“Quem me dera ser leal, discreto e silencioso como a minha sombra.”

“Basta que um botão erre de casa para que o desencontro seja total.”

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