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Archive for fevereiro \06\UTC 2008

Henri Cartier-Bresson era aquele francês que parava o tempo no instante, capturando-o na objetiva da sua Leica feito um grito parado no ar. Não cabe nem um antes nem um depois: é só aquele quando, micro-recortado da paisagem, roubado à respiração dos viventes sob a mira certeira da sua câmera. Quer ver um exemplo? Olhe só o sorriso de orgulho deste menino dobrando uma esquina de Paris, equilibrando duas enormes garrafas de vinho. Podia ser antes? Nunca, nem depois.

Mas o que isso tem a ver com Olinda nesta Quarta-Feira de Cinzas? Tudo a ver. O carnaval de rua em Olinda levaria Bresson ao delírio, pela quantidade de instantes capturáveis. Aqui na rua da Boa Hora, tarde da noite, ainda zoam centenas de jovens ao som dos boizinhos. Fizeram ponto, aos poucos. E hoje são multidão, zanzando, conversando. Agora já acabou o som, sobe apenas o vozerio, uma multidão “avaliando” o carnaval e marcando o próximo.

Sempre achei que essa paixão dos jovens pelo carnaval de Olinda tem algo além dos blocos, do frevo, do encontro. Tem um negócio irresistível de “textura urbana”, de paisagem na escala humana fazendo o cenário perfeito do encontro das pessoas. É visual, é táctil, é fotogênico — gente recortada na paisagem em escala humana. É Bresson.

E quando a paisagem é grandiosa, como na fotografia abaixo, aí entra a poesia da imagem para humanizar a cena, tal qual uma composição niemeyeriana das curvas da natureza com o movimento do corpo humano. Pois é isso que Bresson faz com as adoradoras indianas. Vejam que ele encontrou um jeito de compor as montanhas (e as nuvens) com o movimento das mãos de uma delas e de encaixar suas cabeças abaixo da linha do horizonte e da linha de montanhas, num dó-ré-mi ao por-do-sol. Elas são maestrinas tal qual Tom Jobim “regendo” o Corcovado-que-lindo…

indiantas de cartier-bresson

Pois não é que encontrei a minha foto mais “momento cartier-bresson”? Dá licença pra falta de modéstia, viu? Mas achei a cópia, nem o negativo eu tinha mais. Como gosto muito dela, resolvi partilhar com os estimados leitores do blog. Por que tão especial, tão Bresson? Primeiro, tem meninos. Depois, tem lá no fundo a Serra de Teixeira, na Paraíba, uma paisagem majestosa que me lembrou a foto da Índia. Tem também os olhares dos meninos: a acuidade do cálculo (o menino da argola), a vigilância (o “fiscal” do fotógrafo), a atenção do concorrente (o menino da direita). E tem a composição de curvas da corda e da lança com a linha de montanhas (bendita teleobjetiva de 135 mm…inigualável). E tem mais: é uma brincadeira infantil no sertão nordestino dos anos 70 que recorda os jogos medievais de cavalhadas (pense num negócio bem ariano-suassuna…)!

Não é uma boniteza? 🙂

menino, argola e serra

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