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Archive for agosto \03\UTC 2008

Entrando pela perna de pinto, saindo pela perna de pato, o que me traz de volta ao “abrigo blogal” — esse serviço de proteção ao ego conectado — são evocações de infância. Justo na hora em que a gente precisa mais, elas chegam — prestativas, fiéis, suprindo carências e recompondo a alma.

Foi quando subia a Serra das Russas, ouvindo Luiz Gonzaga e comendo o milho assado de Bonança. Lembrei da minha tia Almira, em Patos, Paraíba, do “Major Migué”. Ela replicava de tal forma o ritual biblíco da repartição do pão, ao cortar em pequeníssimas rodelas o milho assado para os sobrinhos, que a santa partilha virou patrimônio imaterial na memória familiar “dos Lúcios”. Um dia ainda peço o tombamento ao IPHAN…

A lembrança do ritual veio outro dia através de Jr., o meu irmão que guarda consigo o nome do nosso pai Edmilson, no exato momento da fogueira junina em que repartíamos o milho de Gravatá. E me traz a estas reflexões que, blogadas, podem também ser úteis aos leitores amigos. Dois dedos de prosa, então.

Primeira coisa: vou falar de lugares — o tempo-espaço construído por pessoas. Pois não é isso que são os lugares? Gravatá, aos meus olhos e sentimentos ainda precários, está se tornando um lugar de recomposição do espaço-emoção das famílias, especialmente as metropolitanas do Recife, esgarçadas pela violência e pelo dia-a-dia estressante da cidade grande. Esse sentimento de recém-chegado à minúscula casinha térreo-e-primeiro (com um providencial terraço em palafita de madeira que fizemos e empresta a ela um ar de “bangalô” metido a besta) foi outro dia complementado por uma observaçào do meu amigo Ricardo de Almeida. Eu dizia que estava comprando “um vento e um friozinho” em Gravatá. Ele me disse: não, você está comprando “convivência”. Pois não é que ele tem razão?

A vista do estúdio para a Serra do Maroto

A vista do estúdio para a Serra do Maroto

Convivência em especial com a família, com as memórias, com os amigos que a gente vai descobrindo que também vão chegando ou passando. Outro dia, por exemplo, estava tomando a decisão de que livros vão pro estúdio de lá, desocupando a minha congestionada estante olindense. O estúdio de primeiro andar tem janela para o vento sudeste, o melhor de Gravatá. É dela que vejo a Serra do Maroto, que já virou mito entre os vizinhos do meu bairro (dizem que até Fátima Bernardes e William Bonner têm casa lá…não sei não, mas Zé Paulim tem…). Pois bem: dividi as prateleiras por décadas (vixe…) e só o ato de arrumá-las é uma viagem de desconstrução e recomposição de pensamentos e ideologias.

Segunda coisa: vou falar de emoções. Diz um mestre chileno, o biólogo Humberto Maturana, que “lenguajear es emocionar” — a linguagem reconstitui emoções perdidas, gera outras, e, ao fazê-lo, cria e recria o nosso mundo. Portanto, Gravatá, ao permitir a conversa familiar e vicinal, mesmo que em simples fins de semana, presta um serviço de reconstrução emocional de laços familiares que podem nos dar força na volta ao trabalho da segunda-feira. Engraçado…por que isso parece não acontecer nas praias de veraneio? Estaremos criando um outro tipo (os “invernistas”) de viajantes de temporada e fim de semana em Pernambuco? A ver.

Só sei que as rodelinhas de milho de tia Almira me fizeram pensar nessas coisas. Quem quer um pedacinho? O primeiro é pra Jr.

Em tempo: vai aqui de lambuja uma sugestão pros “invernistas” que me lêem, sempre na linha de ajudar a recompor o espaço-emoção da família no friozinho de Gravatá. Alguém chama a turma pro cantinho mais legal da casa, DESLIGA a TV e bota um som mais suave (pede licença à meninada do som-axé). Depois, cada um pega uma folha de papel em branco, uma caneta, e faz o seguinte: desenha do seu jeito a planta-baixa (quarta, sala, terraço etc.) da casa da infância, e vai escrevendo/desenhando as lembrança nos lugares em que aconteceram. Aí depois cada um fala da experiência pros outros. Que tal? Garanto que não vão se arrepender de ter perdido a novela das oito.

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