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goleiro faz gol historico sem oposiçaoNo começo da semana, na Inglaterra, um gesto de nobreza moral pra lavar a alma dolorida de todos nós (com tanta coisa ruim acontecendo no brasilzim de mensalões). Uma partida entre o Nottingham Forest e o Leicester havia sido cancelada há três semanas quando um jogador do Leicester teve um ataque cardíaco. O placar estava 1 a 0 para o Nottingham. Pois não é que o Leicester, na partida retomada nesta semana, cedeu o gol de volta ao Nottingham?

O goleiro do Nottingham foi quem fez. Vejam no YouTube, pra não esquecer nunca mais. Confesso que, ao olhar na televisão a cena, cada passo do goleiro — saindo do meio do campo lentamente, sob o silêncio absoluto das duas torcidas, sem nenhum jogador do Leicester se opondo a ele — doía na minha alma sofrida com tanta coisa ruim que a gente tem visto no Brasil. Também, quando ele chutou pro gol, depois de cumprimentado por seu companheiro de profissão, o sentimento mais profundo de nem-tudo-está-perdido já havia assumido o controle de mim. Felizmente. Dormi agradecido ao velho esporte bretão, que ainda nos dá aulas originais.

PS.: sim, o Leicester ainda ganhou de 3 a 2, no finzinho do jogo…quer dizer: os deuses do esporte também agradeceram, à sua maneira, pelo gesto nobre.

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brazil-lower-middle-class.gifHouve um tempo, nas conversas da esquerda neste país, em que se maldizia a alienação da classe média (aliás, palavrinha que desapareceu essa, alienação…). Era com se fosse o atraso, a contraposição anti-revolucionária do individualismo à tendência coletivizante dos sonhos socialistas. Mais ainda quando se associava a esses o pensamento sindical, que se estratificou num partido (o PT) e hoje se encastelou no poder (pesquisa da FGV demonstra que 45% dos mais altos cargos do Governo Lula estão nas mãos de sindicalizados)

Pois não é que o PT desdemonizou a classe média? Numa visão utilitarista (serve aos argumentos do crescimento nunca-antes-na-história-deste-país? então pega, depois joga fora), surge no discurso oficial, de repente não mais que de repente, a “nova classe média” (ver apresentação do ministro Mantega aqui). Isso depois que a The Economist teceu loas à boa notícia de que esse segmento vinha ganhando maior participação na sociedade latino-americana (ver gráfico, caso do Brasil). Na realidade, um outro tipo de classe média, não a mesma dos anos 80, 90, que foi perdendo poder aquisitivo, mas uma nova classe média “from the bottom up”. A classe C cresceu, começou a comprar computador, a trocar a geladeira por outra mais sofisticada, a usar a internet.

Enquanto esse novo personagem entra no gráfico de barras dos economistas, é uma coisa (os economistas do ministério da Fazenda fizeram uns bem bonitinhos pro ministro). Outra bem diferente é quando entra na análise dos sociólogos e cientistas políticos. Ai é que está o nó: o que vão pensar e como vão agir esses novos usuários da informação (atenção!) é que são elas (e eles).

A minha aposta é num reencontro muito interessante: de um lado, a “velha” classe média cansada de guerra, de safadeza, de corrução no governo, desencantada com o voto que deu ao PT “sem medo de ser feliz”; de outro, os “novos-ricos” da informação, a ex-futura classe operária que não foi ao paraíso nem freqüentou os sindicatos, os recém-apaixonados pelo orkut, pelo correio eletrônico, pelos chats, os usuários das redes sociais na internet. Uma entrevista muito interessante no Estadão, do cientista político Amaury de Souza, trata disso, mesmo que de forma breve, mas muito criativa. Não por acaso é um carioca.

Definitivamente, estamos precisando de mais cientistas sociais cariocas do que de economistas paulistas (que vergonha, Mercadante…) para interpretar essa nova realidade emergente no Brasil. Que bom que venha do Rio de Janeiro uma voz que se contrapõe ao bonapartismo sindical paulista no poder.

O orvalho da grama doía nas minhas canelas de menino. Também, fazer educação física às cinco horas da manhã… Era tão escuro no campo de futebol do Colégio Diocesano de Patos que ainda dava pra ver a luz que saía pela janela insone do padre Assis.

por do sol no sertaoComo a curiosidade não mata, morria de vontade de ver de lá. Era uma janela de primeiro andar, olhando pro campo e além dele, para o rio Espinharas. Hoje percebo que era muito mais além o que enchia os olhos do padre e a minha curiosidade — era a serra de Teixeira, pintada do sol amarelo-avermelhado que só a tardinha sertaneja tem. E vejo, na distância da saudade, o que coloria de vermelho a “Crônica das Doze” do padre Assis, que já nos deixou ainda nos anos 80.

“O sol…tintas vermelhas no horizonte.” Começava assim a crônica na Rádio Espinharas de Patos que fazia brilhar os meus olhos de infância no sol do meio-dia. Por isso, pedi ao padre, supervisor escolar da Diocese de Patos, na Paraíba, hábil nos sermões e virtuoso na crônica, para batizar a nova fase deste blog.

Em sua homenagem, e procurando inspiração na “Crônica das Doze”, todo santo dia na rádio (ah, a disciplina…), vou tentar a observação diária desses novos tempos. Quando chegar perto do meio-dia, vou afastar a atenção da janela do computador e buscar a tinta vermelha do padre Assis para colorir as minhas retinas digitais.

Abença, padre.

aposentado-do-templo-do-ceu.jpgVou revisitar o post anterior (o do senhor que faz “chorar” um instrumento de cordas). Olhei, olhei…e vi com outros olhos a filmagem indiscreta. A imagem não ajuda, a câmera digital foi feita para poses, claro — senão não vendem filmadoras, não é verdade? Mas vejam comigo uma silhueta que se move atrás do senhor. Sinto que uma visão lateral instintiva me levou a enquadrá-la, nos seus movimentos discretos e furtivos. É sem dúvida a esposa, que prepara um chá em dueto com o marido concertista. Por sorte, tinha uma foto, tirada na mesma ocasião da filmagem, para vermos em mais detalhe os instrumentos do tocador do Templo do Céu. Mas a foto, a única — ato falho — não inclui a esposa! Então, resolvi publicar, mesmo assim — desta desta vez em homenagem ao yin-yang da vida a dois, aqui ou na China. Revejam o filme aí embaixo, desta vez com o “olhar feminino”.

Numa tarde quente de junho, caminhávamoss pela passarelas cobertas que dão acesso ao Templo do Céu, em Pequim. O guia chinês contava uma história interessante: os senhores e senhoras de idade que estavam sentados ali, ao longo de todo o trajeto, eram chineses aposentados, que se divertiam das mais diversas maneiras. Uns, faziam uma espécie de karaokê improvisado. Outros, jogavam cartas, ou um tipo de dominó. Mais alguns jogavam petecas (com grande habilidade!).

Um som muito especial me atraiu a atenção. Imediatamente, chaveei a pequenina Olympus digital para a posição de filmar, certo de que não poderia perder nunca aquela chance do acaso — só assim poderia captar a música que um senhor tirava de um instrumento de uma corda só. A qualidade da imagem, óbvio, não é lá essas coisas, mas vale pela oportunidade conquistada de mostrar a vocês a ternura com que o velhinho dedicava esse som aos que passavam por ali. Ou melhor: prefiro imaginar que ele fazia isso para um passado de si mesmo, um réquiem para uma velha China que não existe mais. Confiram aí embaixo no vídeo que postei no YouTube:

telhado-azul.jpgAntes de viajar para a China, fiz umas incursões no Google Earth sobre Beijing. Postei aqui um pergunta, meio de brincadeira: será que Beijing é azul? Haviam me impressionado os telhados azuis de Pequim no Google. Chegando lá, fui descobrir o que eu já deveria ter suspeitado com menos romantismo — sim, de fato, como vemos na fotografia ao lado, algum fornecedor de cobertas azuis (em alumínio?) domina o mercado de telhados industriais. Agora, volto ao tema das metáforas com uma preocupação: será que está tudo azul mesmo na China, como tem sido a predominância dos nossos posts sinceramente impactados pelo que vimos das transformações na sociedade chinesa?

Claro que não se faz omelete sem quebrar ovos, como diria o outro. E um dos fenômenos mais comentados na imprensa internancional, como efeito perverso da rapidez das mudanças na China, é o das migrações rural-urbanas e das condições de vida desses migrantes. Estimativas dão conta de mais de 140 milhões de chineses que teriam mudado o domicílio de rural para urbano em pouco mais de uma década. Isso é como se 80% dos brasileiros tivessem se mudado do campo para as cidades em 10 anos (aliás, o que nos diferencia da sociedade chinesa de forma importante, entre outras coisas, é que já somos mais de 85% urbanos, e eles pouco mais de 30%).

Uma matéria recente, na The Economist de 7 de junho,  traz eloqüente relato sobre o drama da habitação para os migrantes rurais. Em notícia oficial de 2005, estimava-se que mais de 34.000 habitações das famosas “vilas urbanas” de Beijing seriam demolidas, para dar lugar aos equipamentos dos Jogos Olímpicos de 2008. O que é pior: essas vilas, através de sublocações de cômodos minúsculos e insalubres, são a única opção de moradia mais em conta para os migrantes que chegam à capital justamente atraídos pelos empregos na construção civil.

Andei buscando, entre as minhas fotos, aquelas que mais pudessem expressar um sentimento solidário com esses migrantes, com esse povo em movimento, milhões de chineses que contróem uma outra China, em mais um movimento pendular de abertura para o resto do mundo depois de um outro ciclo de fechamento, entre tantos de uma longa história de mais de 3.500 anos (7 vezes maior do que a história escrita do Brasil!). Aí encontrei três. A primeira, logo na nossa chegada no aeroporto de Beijing, tirada da janela do ônibus, me trouxe o sentimento de ternura pelo senhor de cócoras, observando atônito a movimentação da delegação pernambucana — a posição de descanso em cócoras tão rural, tão China antiga, tão sertanejo-nordestina. A segunda, num outro extremo, numa livraria de livros importados de um shopping de Shanghai, também retrata um jovem de cócoras — so que desta vez lendo um livro. E a terceira, uma síntese: um casal jovem num ônibus-leito de 2 andares (!!) entre Shanghai e Ningbo, numa parada de meio de estrada, troca comigo “espelhinhos” com a câmera do celular e o “v” da vitória. Que vençam mais esse desafio, amigos, com a ajuda do Tao, Confúcio e Buda.

cocoras-1.jpg

Foto 1: observando os brasileiros, tranquilamente…

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Foto 2: nem aí para os circunstantes…

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Foto 3: boa sorte, amigos…

Já postei aquela que achei a melhor foto da viagem. Por que nao colocar a pior?  Ei-la.

A pior foto da viagem

Serve de alerta: não se exponha ao ridículo, nem aqui e nem na China.

Mas se a exposição já aconteceu, siga o conselho da Marta “Botox” Suplicy.